A INTEGRALIDADE DO HOMEM PÓS-MODERNO NA PERSPECTIVA DA FILOSOFIA DE PAUL RICOEUR

A INTEGRALIDADE DO HOMEM PÓS-MODERNO NA PERSPECTIVA DA FILOSOFIA DE PAUL RICOEUR

 

Tomo a liberdade de aproveitar o espaço do site para, de vez em quando, publicar alguns artigos que escrevo durante minha graduação em filosofia. Geralmente são artigos de revisão bibliográfica e não tem ligação direta com teologia. Este que ora esponho é uma revisão de uma das obras do filósofo francês Paul Ricoeur que, paralelamente a sua grande obra filosófica, possui também uma vasta obra teológica, sendo ele um protestante calvinista. O artigo, reitero, se refere a um de seus escritos de filosofia entitulado "Finitude e Culpabilidade". Cabe ressaltar, que sempre foi uma preocupação deste autor separar a sua filosofia de sua teologia, porém, como podem perceber pela leitura deste artigo, tal separação torna-se extremamente frágil. Boa leitura à quem interessar.

Tiago Donassolo Bellei

tiagobellei@hotmail.com

Universidade Federal da Fronteira Sul

 

 

Resumo: O presente estudo faz uma breve análise da obra do filósofo francês Paul Ricoeur, com o objetivo de demonstrar a necessidade de reconhecimento de si, bem como o caminho a ser traçado para atingir este reconhecimento. É justamente no contexto da sociedade contemporânea, em que o sujeito está rodeado de uma multiplicidade de ideologias quase infinita, que parece agravar-se o problema da auto-compreensão, justiçando-se, assim, a presente proposta. Neste sentido, tentaremos demonstrar, por meio de uma análise dos conceitos ricoeurianos de afirmação originária e diferença existencial, bem como do conceito de mediação humana, o papel fundamental que a hermenêutica pode exercer neste processo de reconhecimento, capaz de conferir ao sujeito uma característica de integralidade em meio a fragmentação pós-moderna.

 

Palavras Chave: Ricoeur. Reconhecimento. Hermenêutica. Integralidade.

 

Introdução

No intuito de nos empenharmos com segurança em busca de um conceito de formação integral do homem pós-moderno, precisamos antes definir em termos suficientemente claros o que pretendemos designar com tal conceito. Com efeito, o termo formação não está aqui relacionado a educação formal escolar, nem tão pouco a familiarização do homem à toda a gama de saber enciclopédico e científico já produzido pela humanidade, mas, antes, nos referimos ao processo pelo qual o sujeito pode chegar a ser familiarizado consigo mesmo e com os seus semelhantes, em um processo de auto-reconhecimento e de reconhecimento mútuo. E é com este esclarecimento que já de início adentramos o universo da filosofia de Paul Ricoeur, em que pese o seu grande esforço em demonstrar a necessidade de o sujeito apropriar-se de si por meio do reconhecimento.

Em sua vasta obra, Ricoeur nos instiga, a sua proposta é ousada e nos interpela a arregaçar as mangas e partir em busca de um reconhecimento que está para além do nosso tempo existencial. Como afirma Hahn (1997, p. 97), em Ricoeur “o nosso conhecimento, o nosso mundo da experiência, a nossa existência estão sempre situados in media res”, ou seja, o que somos não começa a ser no momento em que passamos a existir, mas somos parte de algo que já está posto, algo pré-existente, não restando outra maneira de reconhecer-nos senão em meio a toda história da humanidade. Nas palavras de Ricoeur (1986, apud Hahn 1997, p. 98), “viver é já ter nascido, numa condição que não escolhemos, numa situação na qual nos encontramos, num quarteirão do universo no qual sentimos que fomos lançados, no qual vagueamos perdidos”.

Estas palavras parecem nos descrever muito bem a situação existencial do homem pós-moderno. Ele está tão distante de sua origem quanto possa imaginar, o universo parece se tornar cada vez maior a medida em que a astronomia avança em direção aos confins do espaço,  em contrapartida,  por uma proporção inversa, o homem se percebe cada vez menor. As verdades mudam constantemente de acordo com as novas descobertas científicas, parece não haver terreno firme, o mercado de trabalho exige mais tempo, mais empenho e mais produtividade. Todas essas são características da sociedade contemporânea, e seus reflexos podem ser sentidos e percebidos na vida social e individual. Na esfera social, homens e mulheres apressados, sem tempo nem interesse em cumprimentar, em perceber, em reconhecer o outro, que por sua vez também não se importa em ser percebido. No âmbito individual, notam-se com cada vez maior evidência os estragos provocados pelas chamadas doenças psicológicas, ditas doenças do mundo moderno, que, segundo entendemos, cooperam para a fragmentação da percepção do sujeito acerca de si próprio.

Imediatamente percebemos a grande dificuldade em que nos encontramos, uma vez que partimos de uma concepção ricoeuriana em que o homem está envolto em uma condição de limitação, falibilidade e finitude. Não obstante, é com estas características, dentro de circunstâncias tão adversas, que o sujeito deverá apropriar-se de si por meio do reconhecimento.

Assim, com o objetivo de apontarmos uma via para a formação do homem integral, dividiremos o presente estudo em duas partes, desenvolvendo, de forma sucessiva, os conceitos ricoeurianos de afirmação originária, diferença existencial e mediação humana, em que o terceiro conceito será apresentado em separado e ao final do estudo, uma vez que representa o último estágio dentro do processo de reconhecimento possível proposto por Ricoeur, o que será antecedido pela tentativa de compreensão de uma condição original que precede a realidade existencial humana, as quais serão abordadas simultaneamente em virtude de sua relação correspondente.

 

Afirmação originaria e diferença existencial

Ora, o simples fato de afirmarmos a necessidade de o sujeito compreender-se, e o fato de que as noções de culpa e de inocência sempre estiveram presentes em meio a história humana, já denota o pressuposto de que partimos, a saber, a ideia de uma exigência moral de perfeição contraposta a uma realidade existencial que nunca atinge a totalidade da exigência que lhe é imposta.

Por outro lado, os aspectos de afirmação originária e diferença existencial que aqui abordamos, só poderão ser compreendidos por meio de uma análise simultânea. Diríamos que é mesmo impossível conceber um deles sem admitir imediatamente o outro, pois quando se trata de diferença existencial pressupõe-se claramente uma condição de existência original da qual se difere. Assim, uma condição anterior de inocência só pode ser concebida a partir de uma presente condição de maldade do homem. Como afirma o autor, “siempre se trasluce lo originário al trasluz de lo degenerado”.(RICOEUR 1982, p. 160, grifo nosso)

Dessa forma, em Ricoeur, o mal é o responsável pela diferença entre o estado real de existência humana e a afirmação original de inocência percebida pela exigência moral infinita. A este respeito, afirma Tavarez (2006, p. 141):

apesar da finitude, o homem apresenta-se como um ser aberto à infinitude, o que significa que pode sempre ultrapassar os seus próprios limites e afirmar a sua liberdade; além disso, a desproporção não se reduz à finitude, mas implica uma exigência de infinitude, na linha de um permanente desejo de ser que caracteriza o ser humano.

Pois bem, este incessante desejo de ser demonstra que o homem está incompleto, existindo nele uma lacuna que parece ser impossível de ser preenchida devido a condição de maldade humana. Esta incompletude constitui-se o que Ricoeur denomina de não-coincidência do homem consigo mesmo evidenciada por “uma desproporção ontológica que é, afinal, a base da possibilidade do mal.” (TAVAREZ, 2006, p. 141)

Porém, para que prossigamos com segurança em direção a um conceito de homem integral dentro da filosofia de Paul Ricoeur, é fundamental definirmos em que sentido ele concebe o problema do mal com relação ao homem. Dessa forma, percebemos que, seguindo a linha de pensamento agostiniano, o autor concebe o mal não do ponto de vista metafísico ontológico, ou seja, como uma força positiva em si mesma, mas sim enquanto uma degeneração ou desvirtualização do bem. Conforme escreve Ricoeur (1982, p.32) “el mal no es un valor simétrico del bien, ni la maldad un sustituvo de la bondad del hombre [...] Por muy radical que sea el mal, nunca podrá ser tan original, tan primordial como la bondad.” É importante destacar também, que embora o mal adentre ao homem em razão de sua liberdade e falibilidade, isso não significa que o mal, enquanto perversão do bem, passe a existir a partir do abuso da faculdade de liberdade humana. Para o autor, a interpretação mítica do pecado original, que será posteriormente abordada, serve como um mecanismo de restrição do mal enquanto um produto puramente humano, conferindo-lhe uma característica demoníaca “pré-humana”, não obstante, este fator não isentaria o homem de suas responsabilidades morais com relação ao mal. (RICOEUR, 1982, p. 409) 

Assim, é pela liberdade que sedemos ao mal, e somente pelo fato de sermos livres é que podemos ser responsabilizados e culpados do mal. Neste sentido, ainda afirma Tavarez (2006):

Ainda que o ser humano não esteja na origem do mal, a verdade é que é quem o pratica; o mal manifesta-se nos seus actos existenciais e, por isso mesmo, o mal é obra da sua liberdade; confessá-lo implica assumir-se como sujeito ou como objecto do mal; consequentemente, a confissão do mal é um pressuposto fundamental da consciência da liberdade.

Portanto, esta seria a atual condição de existência humana, em que o mal, transformado em culpa pela liberdade, nos impõe uma limitação de reconhecimento do si e do todo. Entretanto, importa lembrarmos que, para Ricoeur, a presente condição humana não é natural, nem tão pouco que fossemos destinados a ela, é antes oriunda de um ato de falha circunstancial, o qual nos outorga a culpa, possibilitado por uma condição de falibilidade, esta sim natural a constituição humana originária. Dessa maneira, uma condição original de inocência, ainda que concebida exclusivamente pela imaginação, não excluiria a falibilidade, mas apenas o ato efetivo de cair, dessa forma, poderia haver falibilidade sem, no entanto, haver imputação de culpa. (RICOEUR, 1982, p. 160)

A este respeito, afirma Ricoeur (1982, p. 162) , “decir que el hombre es lábil equivale a decir que la limitación propia de un ser que no coincide consigo mismo es la debilidad originaria de donde emana el mal”.  Ora, aqui se percebe que a condição de não-reconhecimento não se dá de forma individual, mas que é parte integrante da atual realidade existencial do sujeito de modo geral, de sorte que uma condição de inocência pode ser concebida apenas pelo imaginário, conforme referimos anteriormente, e que, portanto, a culpa passou a integrar a constituição do sujeito humano a posteriori. Assim, seria possível dizer que, em Ricoeur, o ser é constituído de duas naturezas distintas, uma oriunda de um ato de criação, portanto inocente e perfeita, e outra adquirida em dado momento existencial pela passagem à culpa mediante a debilidade. Contudo, essas duas naturezas não se anulam uma a outra, mas subsistem ambas em um mesmo ser.

Certamente, esta concepção ricoeuriana é fortemente inspirada pelo pensamento cristão, mais precisamente pela teologia protestante, conforme se percebe pela explicação calvinista acerca da culposidade humana inata, transmitida em virtude do pecado de Adão, a qual fazemos questão de vos expor:

Isso não se deu somente por sua corrupção pessoal, a qual não nos diz respeito; ao contrário, porque infeccionou a toda sua descendência com essa depravação em que caíra. Tampouco se manteria, de outra maneira, também a declaração de Paulo de que todos são por natureza filhos da ira [Ef 2.3], a não ser que, já no próprio ventre, estivessem sob a maldição da culposidade. Depreende-se facilmente que por certo aqui não se deve entender natureza como foi criada por Deus; antes, como foi corrompida em Adão, pois que estaria muito longe de ser procedente que Deus se fizesse o autor da morte. Portanto, de tal forma se corrompeu Adão que o contágio se transmitiu dele a toda a descendência. (CALVINO, 1985, p. 22, VOL. II, grifos do autor).

Dessa forma, para Ricoeur, esta infecção que contaminou o homem de forma alguma decreta a sua destruição, pois esta segunda natureza adquirida, e da qual não se pode escapar, não faz com que seja aniquilada a natureza original de que fomos constituídos, a qual representa a nossa verdadeira humanidade. Portanto, por mais que estejamos impregnados, ou infectados pela culpa, fruto da maldade, jamais deixaremos de possuir a natureza primordial da qual somos constituídos, a saber, a própria humanidade. Como escreve Ricoeur (1982 p. 312)

por muy positivo e seductor que sea el mal, y por mucho que nos afecte e infecte, no puede hacer que el hombre deje de ser hombre, no puede alterar su ser; la infeción no puede convertirse en defección, es decir, no puede hacer que las disposiciones y funciones constituvas de nuestra humanidad se desintegren y se aniquilen hasta el punto de dar lugar a la aparición de outra realidad distinta de la humana. (grifo nosso)

Com base nestas palavras, podemos concluir que a primeira natureza humana, por assim dizer, embora esteja aí presente no sujeito, jaz em uma condição de latência da qual necessita ser removida. Ora, o processo com o qual se poderia colocar em evidência esta humanidade constitui-se no que Ricoeur denomina de mediação humana, e o sucesso deste empreendimento significaria o que denominamos de formação de um homem integral, ou seja, o homem tornado humano. Isto posto, damos por encerrada a primeira parte do presente artigo, na qual nos dedicamos basicamente em definir quais as implicações constitutivas do sujeito segundo a perspectiva ricoeuriana, restando agora propormos a possibilidade de um caminho de retorno ao si.

 

Mediação humana

Certamente, quem tiver nos acompanhado até este ponto já deve ter percebido que a filosofia de Paul Ricoeur se alicerça sobre fundamentos cristãos bastante vigorosos, o que possivelmente pode despertar um espírito crítico avesso a proposta filosófica do autor. A fé, não tomada apenas em sentido religioso, mas em toda a amplitude de sua significação etimológica, exerce uma influência negativa dentro do círculo acadêmico contemporâneo. Contudo, na perspectiva ricoeuriana, ela está presente e é mesmo necessária a todo conhecimento filosófico que se pretenda construir, o que não é diferente com relação a sua própria filosofia, uma vez que parte da interpretação hermenêutica da história humana através dos mitos.  

Para o autor, o único meio de produzir uma filosofia a partir dos símbolos, é abandonar o plano da verdade sem fé “para entrar en el círculo de la hermenêutica, en el que el <<creer para comprender>> se convierte, a su vez, en <<comprender para creer>>”. Assim, a única forma de quebrar este círculo produzido pela hermenêutica é através da aposta ou pressuposto, logo, é neste sentido que se toma o termo fé: uma aposta de que se pode compreender melhor o ser humano em si mesmo e em suas relações com os demais seres a partir do pensamento simbólico e, a partir daí, confirmá-la através do exercício racional tornando-a inteligível e coerente. (RICOEUR, 1982 p. 496, grifos nossos).

            Esta tarefa, por ser fundamentalmente hermenêutica, concentra-se na interpretação da história desde os mitos e símbolos que nos apresentam a condição humana recorrendo unicamente a narração e não a qualquer demonstração lógica racional ou dedutiva, o que, consequentemente, se opõe “a desmesura da razão empenhada não em interpretar, mas em construir soberanamente o mundo e a história”. (PEREIRA 2003, p. 235)

É na interpretação dos mitos que Ricoeur pretende encontrar a resposta, ou o caminho para o reconhecimento pois, para ele, os mitos englobam a humanidade toda em uma única história, por meio de uma característica concreta que é atribuída por meio da narração. Porém, como não possui um apelo puramente racional, mas somente um exercício de narração, o mito não pode e não deve ser objeto de tradução ou interpretação, no sentido de dar um significado à narrativa mítica tendo-a como uma mera alegoria. A análise correta do mito seria aquela que nos leva ao seu momento histórico de forma a estarmos presentes em seu contexto, a fim de compreendermos daí, exclusivamente a partir de sua narração, o que ele de fato nos diz. (RICOEUR 1982, p. 316 -317)

Esta concepção acerca dos mitos se percebe claramente na análise ricoeuriana do mito adâmico da queda, em que a figura de Adão concentra cada um individualmente e todos os homens juntos ao mesmo tempo, dessa forma, para Ricoeur (1982, p. 394), o mito da queda deve ser compreendido como um rompimento “que marco el fin y el principio: el fin de uma época de inocencia y el principio de un tiempo de maldición”. Ora, é por intermédio do mito da queda que podemos conceber uma condição da qual se decai, esta, portanto, deve ser caracterizada pela inocência e pela integralidade, por outro lado, a queda desta condição simboliza a passagem a culpa pelo pecado e, por consequência, ao desencontro do homem consigo mesmo, ou seja, a alienação de si. A este respeito afirma Ricoeur (1982, p. 401):

el pecado no forma parte de nuestra realidad original ni entra como componente en la estructura ontológica primordial; es decir, que el pecado no define al ser-hombre: antes de su devenir-pecador existia el ser-creado[...] El pecado no sucede a la inocencia, sino que la pierda <<al instante>>. Somos creados en un instante, y en un instante caemos. Somos creados en un instante: en efecto, nuestra bondad primitiva constituye nuestro estatuto de seres-creados; ahora bien, nosotros no podemos cesar de ser creados, so pena de cesar de ser; por conseguiente, nosotros no cesamos de ser buenos.

Contudo, é importante destacarmos que, ao que parece, Ricoeur não pretende nos conduzir de volta ao estado de ingenuidade primeira em que a inocência permitiria a compreensão imediata da consciência acerca de si mesmo. O que se nos apresenta na filosofia do autor, é a tentativa de apontar uma caminho de compreensão não mais imediato e perfeito, mas mediado pela hermenêutica dos mitos e símbolos e pela narrativa. (RICOEUR 1982 p. 492)

Conforme afirma Ricoeur (1982, p. 491), “lo que me anima en mi labor nos es la nostalgia de las Atlántidas sumergidas, sino la esperanza de una renovación a fondo del lenguaje”. Porém, pareceria um tanto impossível ao homem pós-moderno cumprir essa tarefa, uma vez que admitimos tal realidade existencial de finitude e limitação conforme nos apresenta Ricoeur. Em que se sustentaria, então, a esperança do autor em afirmar que é possível ao homem apropriar-se de si através da interpretação hermenêutica e da narrativa? Justamente no fato de que é a sociedade contemporânea quem possuí todas as ferramentas necessárias para fazê-lo, a saber, a filologia, a exegese e a fenomenologia, capazes de tornar legível e inteligível o texto da ação humana.

Desta maneira, percebemos a fundamental importância da narrativa neste processo, uma vez que os acontecimentos humanos apenas podem ser reconhecidos se transmitidos dentro de uma história. Assim, no momento em que é contada, a história produz uma identidade ao que narra, a qual, não obstante, pode se demonstrar completamente distinta ao ouvinte. Dessa forma, podemos falar em uma identidade narrativa que se dá pela “intriga del relato que permanece inacabado y abierto a la posibilidad de contar de otro modo y de dejarse contar por los otros”. (RICOEUR 2005, grifo nosso)

Neste momento, nos encontramos em meio ao processo de mutualidade nesta busca pelo reconhecimento. Neste sentido, podemos afirmar que apenas o auto-reconhecimento não seria suficiente e é mesmo impossível de ser atingido se não houver também o reconhecimento do outro. Em outras palavras, não há meios de se chegar a plena compreensão de si sem, simultaneamente, reconhecer e compreender o outro. Assim, para Ricoeur (1991, p. 127), tornam-se “fundamentalmente equivalentes a estima do outro como um si-mesmo e a estima de si-mesmo como um outro”. Contudo, esta mutualidade não se estabelece de maneira amigável, senão por meio do conflito. É neste sentido que podemos falar em uma luta do homem pós-moderno pela apropriação de si, pois, conforme afirma Ricoeur (2005), “la idea de lucha por el reconocimiento se encuentra en el centro de las relaciones sociales modernas”.

Por fim, ao final deste trabalho, talvez nos encontremos no momento mais crítico na busca pelo reconhecimento segundo o caminho que nos aponta o autor, pois, neste ponto, perdemos a independência no processo de reconhecimento e nos percebemos dependentes do reconhecimento que nos confere o outro. Nas palavras de Ricoeur (2005), “una historia de vida se compone de una multitud de otras historias de vida”, deste modo, o reconhecimento de si depende invariavelmente da mutualidade e da reciprocidade, uma vez que a história pessoal só pode ser compreendida em meio as inumeráveis histórias de nossos semelhantes.

 

Considerações finais

Tendo chegado ao fim da exposição que nos propusemos, certamente sem a pretensão de termos esgotado o tema em virtude da brevidade e mesmo da superficialidade do presente estudo, contudo, damo-nos por satisfeitos, uma vez que o objetivo de demonstrar a necessidade de uma busca pela integralidade através do reconhecimento, e este pela hermenêutica, parece ter sido atingido.

Não obstante, apresentam-se dificuldades tais neste processo, parecendo-nos mesmo que apenas uma existência seria insuficiente para chegarmos ao fundo da compreensão do si e do outro.

De fato, este é o caminho para o qual parece nos conduzir a filosofia de Paul Ricoeur; um caminho que parece não ter fim, que permanece sempre inacabado e aberto a novas interferências, o que nos leva a concluir que também a luta pelo reconhecimento, que em nosso estudo constitui-se na luta pela própria integralidade, permanecerá aberta e inacabada enquanto perdurar a existência humana.

 

Referências

CALVINO, J. As institutas: ou tratado da religião cristã. Edição Clássica (latim).

HAHN, L. E. (org). A filosofia de Paul Ricoeur: 16 ensaios críticos e respostas de Paul Ricoeur aos seus críticos. Tradução: Antônio Moreira Teixeira. Lisboa: Piaget, 1997.

PEREIRA, M. B. A hermenêutica da condição humana de Paul Ricoeur. Revista Filosófica de Coimbra, Coimbra: Vinte e quatro, 2003.

RICOEUR, P. Finitud y culpabilidad. Tradução para o espanhol: Cecilio Sánchez Gil. Madrid: Taurus, 1982.                             

_______. O si-mesmo como um outro. Tradução de Lucy Moreira Cesar. Campinas: Papirus, 1991.

_______. Volverse capaz, ser reconocido. Tradução para o espanhol de Mónica Portnoy. 2005. Disponível em: http://www.4shared.com/get/ylZbw2sL/ Ricoeur_-_Volverse_capaz_ser_r.html. Acesso em: 29 Ago 2011.

TAVARES, M. Fundamentos metodológicos do pensamento antropológico e ético de Paul Ricoeur: o problema do mal. Memorandum, 2006  p. 136-146. Disponível em: http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a10/tavares01.pdf. Acesso em 16 Ago de 2011. 

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